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I parte - Publicação: 16/07/2009 .  

DED analisa possível apoio ao manejo florestal no Pará .  

Uma equipe do DED fez uma visita à região da BR 163, no Pará, para conhecer assentamentos que desejam trabalhar com o manejo florestal sustentável. Leia a série de reportagens produzidas pela assessora de Comunicação da Organização, Ana Célia Floriano, sobre a realidade dessas comunidades.

 

 

 

A viagem da equipe do DED à BR 163 ocorreu durante quatro dias, no final do mês de maio, com o objetivo de conhecer a realidade das comunidades dessa região que atuam ou desejam atuar com o manejo sustentável da floresta. O foco principal das visitas foram assentamentos nos quais as famílias estão se organizando em associações e cooperativas para a execução dessa atividade. Acompanharam o Serviço Alemão, o integrante do Serviço Florestal Brasileiro (SFB), que coordena o Distrito Florestal Sustentável da BR-163, Fernando Ludke, e o coordenador de Gestão Florestal da GTZ , Ludwig Schindler. Com as informações colhidas, o DED irá avaliar uma solicitação de apoio feita pelo SFB.

O SFB é ligado ao Ministério do Meio Ambiente (MMA) e tem, entre outras funções, a responsabilidade de gerenciar o Cadastro Nacional das Florestas Públicas (CNFP) e o Fundo Nacional de Desenvolvimento Florestal, além de conciliar o uso e conservação dessas áreas, através da oferta de serviços especializados, que visam contribuir com a construção de conhecimentos e o desenvolvimento de capacidades das comunidades que habitam as florestas ou o entorno dessas.


 

Entendendo o que são Florestas Públicas (FP) - De acordo com a Lei nº 11.284/ 2006, são consideradas florestas públicas aquelas naturais ou plantadas, localizadas nos diversos biomas brasileiros, que estejam em bens sob o domínio da União, dos estados, dos municípios, do Distrito Federal ou das entidades da administração indireta. Até junho de 2008, estavam inseridos no CNFP uma área de aproximadamente 210,8 milhões de hectares, o que representa 24,8% do território nacional. Essas estão nos diferentes biomas do país, porém, é na Amazônia que se encontra a maior parte: 92,68%.


As florestas públicas federais podem estar em duas situações: destinadas e não-destinadas. A primeira ocorre quando a União já definiu uma utilização para o cumprimento de uma função social (conservação ambiental ou uso comunitário por grupos sociais); já a segunda, são aquelas situadas em terras arrecadadas, mas que ainda estão sem destinação definida.

De acordo com dados do Plano Anual de Outorga Florestal (PAOF) 2009 - do total de 198,5 milhões de hectares em fase de identificação no CNFP, 87% são florestas públicas destinadas e 13% (25,4 milhões de hectares) são não-destinadas.

Ainda segundo o documento, as florestas públicas podem ser destinadas às comunidades locais de diferentes formas. Além das Unidades de Conservação de Uso Sustentável, como as Reservas Extrativistas/RESEX e as Reservas de Desenvolvimento Sustentável/RDS, onde um dos principais objetivos é beneficiar as populações tradicionais, há também as áreas destinadas a projetos de assentamento, incluindo os Projetos de Desenvolvimento Sustentável/PDS, os Projetos de Assentamento Agroextrativista/PAE, os Projetos de Assentamento Florestal/PAF e os Projetos de Assentamentos Especiais Quilombolas.

A região visitada - A macrorregião do Distrito Florestal Sustentável da B R 1 6 3 abrange mais de 19 milhões de hectares e conta com mais de 90% de área ocupada por florestas, quase totalmente localizada em terras públicas. São 75 Florestas Públicas destinadas e 4.038.131 ha de FP não-destinadas. As florestas legalmente aptas para concessão são 13, sendo 10 Florestas Nacionais, uma Área de Proteção Ambiental e duas Florestas Estaduais.


O Distrito Florestal Sustentável (DFS)

é um complexo geoeconômico e social estabelecido com a finalidade de definir territórios onde serão priorizadas a implementação de políticas públicas que estimulem o desenvolvimento integrado com atividades de base florestal.

O DFS da BR 163 foi o primeiro criado no país e se estende de Santarém até Castelo dos Sonhos (PA), no eixo da BR-163 (Cuiabá- Santarém), e de Jacareacanga a Altamira no eixo da BR-230 (Transamazônica).


Concessão Florestal

é o direito que o Governo (federal ou estadual) concede a particulares, mediante licitação para exploração de produtos e serviços de uma determinada floresta pública, a partir de um pagamento pelo uso desses produtos e serviços e com a obrigação de praticar o manejo florestal sustentável, sob regras estabelecidas pelo Governo. A concessão não pressupõe a transferência da titularidade. A floresta continua sendo pública.


A parceria DED/SFB - Nessa região da BR 163, das áreas selecionadas pelo SFB como Floresta Pública da União, que estão aptas para o manejo sustentável, muitas são destinadas a projetos de assentamentos. "Nesse sentido, o requerimento do Serviço Florestal ao DED diz respeito à necessidade de assessoria ao Manejo Florestal Comunitário (MFC), envolvendo aspetos de organização, questões técnicas, beneficiamento, comercialização etc., tanto da madeira como dos produtos não-madeireiros (óleos, frutos, resinas etc.)", explica um dos coordenadores de Programa do DED, Berend Becker.

Manejo florestal sustentável é a administração da floresta de forma planejada para a obtenção de benefícios econômicos, sociais e ambientais, respeitando-se os mecanismos de sustentação do ecossistema, objeto do manejo, e considerando-se, cumulativa ou alternativamente, a utilização de múltiplas espécies madeireiras, de múltiplos produtos e subprodutos não-madeireiros, bem como a utilização de outros bens e serviços de natureza florestal, com o menor impacto possível.

A proposta é que o apoio do DED ocorra, inicialmente, no acompanhamento de projetos de manejo realizados pelo SFB e INCRA em oito dos 98 assentamentos da região. Para que esses fossem escolhidos, eles passaram por uma série de critérios, entre os quais cobertura florestal, interesse no manejo florestal e capacidade organizacional. Essa iniciativa atinge dois modelos de assentamentos: PA (Projeto de Assentamento - cuja propriedade é privada. Os lotes são definidos e partir do momento que a pessoa quita sua dívida, passa a ser proprietária) e o PDS (Projeto de Desenvolvimento Sustentável - área que a família tem o direito de usar, mas continua sendo pública). Nesse último caso, cada família assentada não pode dedicar mais que 12 hectares para fins agropecuários. Nos PDSs, 80% da renda dos moradores vêm do manejo sustentável da floresta.

"Para o DED, é muito importante que os nossos técnicos (cooperantes) venham para a região na perspectiva de contribuir com a proteção e o manejo sustentável da floresta, através de uma atuação integral, e que, com esse trabalho, também possam melhorar a qualidade de vida das famílias e o fortalecimento das organizações locais", reforçou o diretor do DED Brasil, Karl Ahlers.

Foi discutido, ainda, durante a visita, a importância das comunidades serem ouvidas e poderem participar, de forma ativa (através de metodologias participativas), da elaboração dos seus Planos de Manejo. Algo que envolva mulheres, homens e jovens, que digam como acham que podem trabalhar naquela área, para que essa proposta realmente dê certo. Fernando Ludke explicou que essa é a intenção do Serviço Florestal, mas que é preciso ficar claro que toda a parte técnica do documento é construída por um engenheiro, ficando a comunidade com a responsabilidade do inventário das espécies de arvores que serão aproveitados.

A história - Ludke contou que, durante muitos anos, os madeireiros trocaram construção de estradas e escolas por lotes, e que a necessidade dos assentados fazia com que eles aceitassem esse tipo de barganha. Ele acrescentou: "além disso, num plano de manejo florestal sustentável, a área deve ser divida por 30 para que haja rodízio durante o uso. Os madeireiros sempre fizeram diferente: eles tiram tudo de uma só vez". Para o integrante do Serviço Florestal, o desafio é capacitar essas comunidades para que elas entendam que essa última opção é desastrosa.

Para fechar esse diálogo entre as instituições, Karl Ahlers enfocou a importância da cooperação alemã (KFW, GTZ e DED) trabalhar de forma conjunta nessas áreas, já que todas apóiam projetos com o SFB nessa região. A idéia seria identificar como fazer essa complementaridade.

A realidade do Paraíso .  


O difícil acesso por estradas de barro, as chuvas e as muitas horas de viagem não impediram o contato da equipe do DED com as famílias que moram em quatro comunidades da região da BR 163. Embora as realidades tragam suas especificidades, todos parecem ter o mesmo desejo: buscar o sustento de suas famílias, mas sem deixar de lado a proteção da floresta. "Nós não temos nada. Não temos nem estradas. Por isso, o que se planta aqui, fica aqui. Se você for lá dentro (referindo-se a parte mais central do assentamento), vai pedir a Deus para nunca mais voltar. Nossa realidade é muito dura. Não podemos continuar assim. Queremos que isso mude. Queremos manter a floresta em pé" - afirma a auxiliar de serviços gerais Helen Maranhão, 39 anos, integrante do Projeto de Assentamento (PA) Paraíso, no município de Rurópolis.

Helen foi morar na região, há mais de 15 anos, com os filhos pequenos, em busca de terra. Ela afirma que uma das grandes causas do desmatamento no assentamento é a falta de estrutura para que os agricultores e agricultoras consigam manter a terra produtiva. "Para alimentar os filhos e as nossas famílias, a gente acaba derrubando as árvores e, às vezes, até colocando fogo. Se tivéssemos condições estruturais, a gente voltava para os lotes e íamos trabalhar da forma correta" - comenta.

O PA Paraíso surgiu em 1997, quando já foi estruturada uma associação. Com o passar do tempo, o aumento das demandas de articulação, além da área extensa e da falta de recursos, surgiram outras três. Os moradores afirmam que apesar da divisão, há um trabalho bastante coletivo pela busca dos direitos de todos e todas.

Com pouco mais de 64.600 hectares, a capacidade do PA Paraíso é de assentar aproximadamente 600 famílias - mas a demarcação chegou somente a 216 lotes, que, atualmente, estão sendo utilizados para criação de animais, até gado, ou para algum tipo de plantio. Nesse modelo de assentamento (PA), é permitida a derrubada de árvores, mediante licença de desmate, de até 20% dos 100 hectares a que tem direito cada família. Os outros 80% formam a área de preservação, a chamada "reserva legal".

Falta de estrutura - A situação no assentamento, segundo a comunidade, é muito difícil em termos de acesso. "Somente 16 quilômetros de estrada foram construídos, mas a necessidade seria de 70 quilômetros. Por isso, logo que foram demarcados os lotes, muita gente entrou, mas acabou não ficando por falta de infraestrutura. Hoje, só 45 famílias realmente moram aqui", afirma o presidente de uma das associações Antônio Bento da Silva.

Ele conta que o PA foi interditado há pouco tempo por causa de uma denúncia de irregularidade no período da criação do assentamento pelo INCRA, pois faltavam as licenças ambientais. O mais grave é que o plano de manejo florestal só será permitido se houver a liberação dessas licenças, algo que se espera que aconteça até o final deste ano.

Durante todo o diálogo com a equipe do DED, a comunidade demonstrou total interesse e disposição em ter a capacitação necessária, oferecida pelo SFB, para realizar o manejo florestal sustentável. Eles reforçaram, no entanto, que, para que isso provoque mudanças reais na vida de homens e mulheres é necessário que seja incentivada a construção de estradas, que haja mais facilidades no financiamento para a compra de ferramentas e que sejam encontradas estratégias para a comercialização dos produtos. Para garantir a permanência das famílias na terra, foi enfocada, principalmente, a necessidade de que a comunidade tenha acesso à infraestrutura básica (estradas vicinais, escolas, postos de saúde etc.).

Na próxima quinta-feira (23/07) saiba como foi a visita a outros assentamentos da região.

 

 

 

 

 

II Parte - Publicação: 23/07/2009 .  

Qualificação do processo de gestão administrativa pode garantir mais benefícios para a COOMFLONA .  


Durante a viagem pela BR 163 (PA), o DED também visitou e conheceu como funciona a Cooperativa Mista da Flona do Tapajós (COOMFLONA). O grupo já realiza o Manejo Florestal Comunitário (MFC), iniciado a partir do apoio do ProManejo, que é um projeto inserido no Programa Piloto para a Proteção das Florestas Tropicais do Brasil (PPG-7), implementado pelo Ministério do Meio Ambiente e pelo IBAMA. A cooperativa, que começou a funcionar em 2005, também recebeu, recentemente, um apoio do DED através da liberação de um profissional alemão e um brasileiro para os trabalhos na área. Atualmente, eles estão contando com uma importante parceria do Serviço Florestal Brasileiro (SFB).

O coordenador do Distrito Federal da BR 163 do SFB, Fernando Ludke, explicou que a cooperativa trabalha, desde 2005, com o manejo florestal madeireiro, mas, ainda necessita de muita capacitação na área de gestão, para que possa dar lucro e realmente beneficiar os cooperados. Outra questão é a necessidade de se aproveitar mais o manejo dos produtos não-madeireiros. "Os óleos produzidos, por exemplo, não têm certificação e, muitas vezes, nem mercado - porque os compradores não têm garantia da produção. Por isso, o SFB pretende revisar o Plano de Manejo deles".

A liberação para o manejo - Ele relatou, ainda, que a responsabilidade por fazer a exploração dessa área da floresta é do Projeto Ambé, que apoiou a criação da cooperativa por ter a necessidade de comercialização da madeira. Outro fato que diz respeito à história da iniciativa é que a Unidade de Conservação já existia, mas, esse grupo, na época, não precisou de concessão para atuar nela porque eles faziam parte de um projeto piloto de Manejo Florestal do ProManejo, que acabou se tornando um embrião da Lei de Gestão Florestal. "Normalmente, quando se faz um Plano de Manejo são separadas as áreas tradicionalmente ocupadas pelas comunidades, as áreas que têm espécies raras que precisam ser preservadas e, o que sobra, vai para a concessão. Porém, eles não passaram por esse trâmite. Isso foi garantido através da Portaria 40 do Governo" - contou Ludke.

Para fazer o manejo, a cooperativa precisa contratar máquinas dos madeireiros. "O problema é que nem sempre existem recursos para isso. Outra coisa é que esses equipamentos quebram com muita freqüência. Tudo, sem contar que o Estado não tem dado apoio" - comentou o presidente da COOMFLONA - Sergio Pimentel, que falou também da repercussão da situação econômica mundial nesse trabalho: "os madeiros compram a madeira nos pregões, a partir dos editais, mas, por causa da crise, poucas pessoas têm se apresentado durante esses momentos".

Sérgio reforçou que entre as necessidades da cooperativa está uma maior capacitação em manejo, principalmente o não-madeireiro, por se tratar de uma vertente muito importante e causar menos pressão na floresta. "Além disso, a gente precisa de uma formação em administração. Por isso, tudo que vem para contribuir com o nosso trabalho é importante"

Quando questionado sobre o que significa manejo sustentável em sua opinião, Pimentel não hesitou em responder: "Sustentável é ver a floresta em pé, sempre. É a cooperativa usar a floresta e depois deixar essa mesma floresta para outras gerações".

Sobre o fato de poucas mulheres atuarem mais diretamente na Coomflona, somente 10 atualmente, ele admitiu que faltam incentivos e oportunidades para que outras possam se envolver. Dessas que estão acompanhando diretamente os trabalhos, uma ocupa uma função administrativa, duas praticam o manejo e as demais ficam com atribuições na cozinha do alojamento.

Depoimentos


O identificador botânico Edvan Nogueira avaliou como muito positivo o seu trabalho na cooperativa. "Tenho cinco pessoas na família e, depois que eu entrei aqui, minha vida ficou bem melhor. Antes, eu trabalhava na agricultura, mas o ganho era muito pequeno. Com o que ganho hoje, compro mais alimentação, roupa, e minha casa está muito melhor". Em sua função, ele diz conhecer todas as espécies da floresta, o que tem contribuído muito no momento de elaboração dos inventários.

Para que as coisas fiquem ainda melhores, Edvan explicou que há necessidade de aumentar a área de trabalho. "A gente começou com 100 hectares, no primeiro ano, depois foi para 200 e, agora, estão querendo 800 hectares". Por lei, pode ser tirado até 1000 hectares.

Para se entender o processo, é necessário destacar que o Plano de Manejo Florestal é aprovado pelo Ibama, que tem um acordo de cooperação com a Secretaria Estadual de Meio Ambiente (SEMA do Pará) para que esta faça o controle da quantidade de madeira retirada.

Já Marcilene Farias entrou na cooperativa há três anos e é responsável pela elaboração das notas para a saída da madeira. "Para mim, foi uma oportunidade muito grande. Fazer esse trabalho na floresta é muito gratificante", afirmou. Ela disse, também, que acha que a única coisa que falta na COOMFLONA é a possibilidade de mais pessoas serem beneficiadas com a venda dos produtos não-madeireiros.

Atualmente, os cooperados que atuam no manejo recebem o que eles chamam de uma ajuda de custo. Alguns chegam a perceber a quantia de R$ 750,00, por mês, mas depende muito da função executada. O tempo também influencia nesses recursos. Em alguns meses, por causa da chuva, eles não conseguem trabalhar e, por isso, não recebem nada.


Alguns destaques da COOMFLONA

A riqueza da floresta

  • Existem 102 tipos de árvores na Flona Tapajos.
  • As árvores que têm sementes ou frutos que podem ser utilizados - não são cortadas. Entre elas, estão as oleaginosas copaíba e a andiroba. Também não são cortadas as que são usadas na produção de remédios. Estão enquadradas nessas duas situações 15 espécies.
  • São cortadas as madeiras que têm mercado - 28 espécies.
  • Espécie mais demandas pelo mercado: Ipê e jatobá.
  • Dentro do processo de manejo - existem 12 funções diferentes que podem ser exercidas pelos cooperados (manejadores/as

Os membros da cooperativa

  • São 140 membros.
  • Somente 42 famílias são manejadoras.
  • As outras famílias participam de grupos nas comunidades, produzindo óleo e móveis. É preciso legalizar essas demais atividades para que esses produtos possam ser comercializados.

 

Comunidade identifica no Plano de Manejo Sustentável oportunidade para melhoria da qualidade de vida .  

O percurso foi longo, horas e horas de viagem até chegar a mais duas comunidades: Igarapé do Anta e Boa Vista. Ambas são Projetos de Desenvolvimento Sustentável (PDS) acompanhados pelo Serviço Florestal Brasileiro (SFB) e que estão entre os oito assentamentos priorizados pelo acordo de cooperação SFB e INCRA na área de capacitação e manejo florestal.

 

O Igarapé do Anta está localizado entre Santarém e Rurópolis. Ele foi criado em 2001 e conta com 40 famílias assentadas, algumas, inclusive, moradores novos, que ainda não receberam oficialmente nenhum lote. Vivendo no local, hoje, estão 14 famílias. As demais, pela falta de estrutura, resolveram voltar para a cidade. Não existem escolas nas proximidades, nem postos de saúde e a estrada é de difícil acesso.

Carmem Cassuli, 39, moradora do local há quatro anos, contou que o objetivo maior da comunidade é trabalhar com o manejo florestal. Quando veio para o Igarapé, ela disse que pensava que poderia trabalhar na terra como em outros assentamentos, mas que, ao chegar, descobriu que ali era uma área de preservação ambiental. A área foi o primeiro PDS no Brasil, depois da identificação de que os PAs (Projetos de Assentamento) não davam sustentabilide para as famílias.

Nos 10.570 hectares existentes - cada família tem uma área individual, para uso com produtos de subsistência, de 3 hectares, mas que pode chegar a 12 ha. A parte de reserva legal é para uso coletivo, o que dá cerca de 9.600 hectares. Nessa área, a assistência técnica vai atuar para indicar o que é possível manejar. Atualmente, as famílias só estão trabalhando com as madeiras mortas, com as quais já conseguiram produzir algumas peças, mas que não podem ser vendidas porque não têm licença ou nota.

A espera - Desde 2004, existe no assentamento a Cooperativa Mista Agroextrativista dos Produtores do Anta (COOMAPA), mas ela não está funcionando. Para sobreviver, as famílias têm realizado trabalhos informais na cidade. Eles aguardam que a empresa que o INCRA contratou possa mandar os técnicos para trabalhar o Projeto de Desenvolvimento do Assentamento (PDA) e que possa ser solicitada a licença ambiental. A partir disso, a expectativa é de que haja a indicação do que pode ser um projeto de manejo para essa área, decidindo um pouco sobre o que se deve plantar nos espaços individuais e como se utilizará a parte coletiva etc.

Os assentados contaram que, durante muito tempo, fizeram a derrubada em seus lotes, mas não sabiam que, para isso, precisavam de licenciamento. Depois de três anos, houve uma intervenção do Ministério Púbico e eles descobriram que estavam cometendo um erro. "Agora, para que a coisa fique legalizada é preciso esperar. Não estamos mexendo mais em nada", comentou Airton Cassuli, 48 anos.

Apesar de alguns moradores afirmarem que existem assentados que são empresários e atuam na cidade, grande parte do grupo nega essa informação e diz que todas as pessoas que têm lotes realmente não possuem condições financeiras e dependem dessa terra para sobreviver.

No assentamento, tanto a GTZ quanto a KFW já deram apoio em capacitações e organização da estrutura da comunidade, além de garantir alguns equipamentos (radiocomunicador, motor de luz, serraria móvel) e um veículo. Um grupo de sete pessoas já foi capacitado para o manejo. O diferencial dessa cooperativa é que se pensa não só em comercializar a madeira, mas também em produzir produtos finais (portas, janelas, móveis).

O Boa Vista - As visitas realizadas pelo DED foram encerradas no PDS Boa Vista do Caracol, no Município Trairão, ao Sul de Itaituba. Já no início do diálogo, o integrante do SFB, Fernando Ludke, afirmou que uma cooperativa para funcionar bem precisa ter sua base no grupo. Ele se referia ao fato de que, muitas vezes, tanto a associação local quanto a cooperativa têm sua força vinculada a algumas pessoas especificamente e não ao coletivo.

A realidade do assentamento, colocada pelo grupo, é a seguinte: ele nasceu em 2006, com 177 famílias cadastradas, mas que ainda não estão assentadas, isto é, não têm a situação regularizada. Desse grupo, poucos são do estado do Pará, a maioria vem de fora. Sem situação definida, os agricultores têm feito trabalhos informais para manter suas famílias. A questão é tão difícil que, segundo eles, os comerciantes não estão mais vendendo fiado (para pagar depois) aos agricultores, por temerem não receber o pagamento.

A economia do município é movimentada pela produção de madeira e de farinha e pelos empregos públicos municipais. Mas, todos esses, nos últimos tempos, segundo o grupo, têm garantido uma renda muito pequena. Eles afirmam que muitos moradores estão abandonando a cidade porque não conseguem manter suas famílias.

A área do assentamento é de 29.947 hectares, mas uma preocupação é que muitos dos inscritos na lista para serem assentados são funcionários públicos ou têm comércio. A expectativa é que, com o acompanhamento do SFB, isso possa ser revisto.

No diálogo, muitas pessoas afirmaram que, antes, não sabiam o que era manejo florestal sustentável, mas que, depois que descobriram essa possibilidade, começaram a sentir a necessidade de aprender mais para que possam praticá-lo e possam lidar com a terra dentro do que é permitido por lei.

O Fórum e os desafios da BR 163 .  


Diálogo da equipe do DED com o padre Arno Longo

Para que o trabalho do Manejo Florestal Sustentável dê certo, tanto n os assentamentos quanto em outras comunidade, é necessário que as estruturas no entorno sejam garantidas. Na região, o Fórum de Movimentos Sociais BR 163, composto por mais de 40 entidades, tem realizado uma série de mobilizações para que políticas públicas adequadas sejam implementadas. Para ampliar o leque de informações sobre os desafios enfrentados por essa população, o DED foi dialogar com o padre Arno Longo - coordenador da articulação.

Como questão central para que a região se desenvolva, o padre disse que existe urgência de que sejam acelerados os processos de legalização fundiária. Ele lamentou o que chamou de morosidade dos órgãos públicos nesse sentido. "Outro problema grave é que o manejo florestal implementado atualmente está sendo feito de forma inadequada, sem melhorias para o agricultor. É um manejo para o madeireiro, que empobrece cada vez mais os lotes. Muitos agricultores não têm sequer madeira para suas casas".

O padre relatou que a influência dos madeireiros é tão forte na região que estradas são criadas para que eles tirem a madeira e sem que os assentados possam utilizá-las. "Em algumas estradas existem até guaritas colocadas por esses madeireiros", destacou. Por esses e outros motivos, Longo pontuou que existe um clima tenso na BR 163, porque quem denuncia fica marcado para morrer e recebe ameaças constantes.

O Plano - Um dos desafios enfrentados pelo Fórum BR 163, de acordo com o religioso, é ter credibilidade. Isso porque as comunidades estão tão acostumadas a promessas e projetos que não são verdadeiros ou não dão certo, que é difícil acreditar em novas propostas. "Hoje, estamos desenvolvendo projetos de assistência técnica e fazendo pressão, em Brasília, para que o Plano BR 163 Sustentável seja implementado da forma como foi pensado. Nós elaboramos as propostas e agora cobramos que elas sejam realizadas. Ele (o Plano), por enquanto, é uma política que para nossa região não foi realizada, não saiu do papel", explicou o padre.

Na região, também existe uma grande luta para que as rádios comunitárias sejam legalizadas. Em muitas áreas, elas servem como único veículo de comunicação da comunidade. No entanto, são poucas as que têm licença para funcionamento. Outro desafio é perceber como essas rádios podem potencializar o trabalho do Fórum BR 163 e das iniciativas desenvolvidas na área de manejo sustentável.

Como o DED já apóia o processo de articulação do Fórum, através da contratação de uma profissional brasileira, a reunião também foi um momento importante para se pensar sobre como essa parceria pode ser fortalecida. Foram discutidas algumas estratégias que poderão contribuir com os processos comunicacionais, sendo, inclusive, pensado um seminário sobre o tema para o mês de agosto.

Para explicar o objetivo do Fórum, o padre destacou: "a nossa tentativa é de trazer esperança novamente para essa gente, dizendo: vamos fazer devagarzinho, que as coisas vão acontecer. São pequenos sinais, pequenas iniciativas, mas que são importantes por estarem brotando".

 

 

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