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Fórum Social Mundial: espaço para o mundo dialogar com a Amazônia .  


Aldalice fala sobre desafios e possibilidades do FSM 2009

Para entender a dinâmica da estruturação do Fórum Social Mundial 2009 e abrir esse espaço de intercâmbio em seu site, o DED Brasil, através de sua assessoria de Comunicação, conversou com a Diretora executiva da ABONG e membro da Coordenação Executiva do Fórum Amazônia Oriental (FAOR), Aldalice Moura da Cruz Otterloo, que também integra a Coordenação do Grupo de Facilitação do FSM 2009. Confira o resultado da entrevista

 

DED - Qual a importância para a Amazônia em sediar uma mobilização no nível do Fórum Social Mundial (FSM) ?

Aldalice - No Fórum, será possível demonstrar os impactos perversos que esse modelo de desenvolvimento, fundamentado no neoliberalismo, vem causando à Região, tanto em relação à exploração irracional dos recursos naturais, quanto na violação dos direitos dos povos que aqui vivem. Mas, também, é um momento para dar visibilidade aos 500 anos de resistência e às alternativas criadas pelos movimentos sociais, ONGs, redes e fóruns da sociedade civil amazônica. Uma oportunidade inédita para o Mundo dialogar a partir das vozes da Amazônia, em vez de discutir a partir de si sobre a Amazônia e ditar as regras de fora para dentro.

DED - Que pautas da região, em sua opinião, devem ser discutidas no Fórum, de forma prioritária, aproveitando a diversidade de participantes?

Aldalice - Sem dúvida nenhuma, uma das questões se relaciona às mudanças climáticas (um dos motivos da escolha da Amazônia para sediar o Fórum), mas também é necessário debater a biodiversidade acentuada nas florestas tropicais frente ao avanço do monocultivo, agora sob a exigência dos agrocombustíveis, o aumento do desmatamento, a ameaça à segurança alimentar com a redução na produção de alimentos e a insustentabilidade das cidades da Amazônia, provocadas pela injustiça ambiental no campo.

DED - Como avalia a participação do FAOR nessa construção? Todas as entidades estão realmente mobilizadas?

Aldalice - O FAOR junto com a UNAMAZ - Rede de Universidades Amazônicas - são as duas únicas entidades regionais aprovadas pelo Comitê Internacional (CI) Fórum Social para comporem o Comitê Coordenador (ou Grupo de Facilitação) do FSM 2009. Isso porque, já têm reconhecimento como atores coletivos de relevância na Região. As duas ajudaram na mobilização para que o FSM viesse para a Amazônia e estão no processo de construção desde a primeira reunião, ocorrida em julho/07. O FAOR está desenvolvendo uma ação mais concentrada no Estado do Pará, dinamizando o conjunto dos movimentos e entidades nele articulado, através do fortalecimento de encontros sub-regionais preparatórios para o FSM e organizando caravanas de participação. Já nos demais Estados da Amazônia Oriental, estamos trabalhando na construção de alternativas para que as organizações e movimentos se insiram no processo da forma mais efetiva possível.

DED - Quais os desafios vivenciados nesse processo de organização do Fórum?

Aldalice - O primeiro grande desafio é convencer, a cada instante, as instâncias governamentais (municipal, estadual e federal) de que o FSM é uma articulação da sociedade civil, e de que o governo é apoio e, portanto, o protagonismo tem que ser da sociedade civil. Isso, apesar de saber que sem o apoio governamental, um evento desse porte torna-se irrealizável. O segundo, é o de criar estratégias para que esse protagonismo seja hegemonizado pelos movimentos sociais e povos excluídos da Amazônia, da Pan Amazônia, da América Latina e de outras regiões do planeta. O terceiro, é construir alternativas de sustentabilidade, fundamentadas na solidariedade, na ética e no respeito à dignidade humana - baseados no aprofundamento dos debates e dando visibilidade às lutas que esses movimentos estão produzindo.

DED - Como está o envolvimento dos governos e da sociedade civil nessa preparação?


Aldalice - Bem, depois de alguns tensionamentos, estamos construindo relações mais solidárias e respeitosas por parte do governo do Estado do Pará e também da sociedade civil, na medida em que, no processo, foi se clareando os papéis e as responsabilidades de cada um dos atores. Nesse sentido, por parte da sociedade civil, já desde outubro/2007, funcionam sete grupos de trabalhos (Mobilização, Comunicação e Memória, Economia Solidária, Recursos e Logística, Cultura, Juventude e Metodologia), abrangendo um universo de mais do que cem voluntários/as em atividades permanentes, articulados através de um Grupo Facilitador, apoiados pelo Comitê Internacional. Esse conjunto da sociedade civil demonstra um dinamismo surpreendente. Já Governo do Estado do Pará estruturou uma equipe de apoio composta por profissionais, liberados por tempo integral, com infra-estrutura própria, a fim de providenciar os aportes necessários na infra-estrutura e facilitando a articulação junto ao governo federal.

DED - Como vocês pretendem trabalhar para envolver fortes temáticas da Amazônia, como a dos direitos dos povos indígenas, no todo do Fórum, e não apenas no seu entorno? Isso é, tratar suas especificidades como responsabilidade de todos e não apenas deles mesmos.

Aldalice - Nas discussões sobre o conteúdo a ser desenvolvido durante o FSM,chegamos a conclusão que o evento deve possibilitar que os povos da Amazônia dialoguem com o mundo e que esse deveria ser o tom, o contexto do evento. Essa opção foi de tal modo acentuada junto ao Comitê Internacional/FSM, que o 2º dia do evento (o primeiro é a Marcha dos Povos), em Belém, será integralmente dedicado às questões Panamazônicas, a partir das manifestações dos seus povos originais e de longa tradição,, ou seja, indígenas, extrativistas e afrodescendentes, chamando o mundo à responsabilidade de dar uma resposta positiva aos 500 anos de Resistência Afro-indígena e Popular.

Portanto, as temáticas relacionadas aos povos indígenas, como garantia de terra e território, incentivo a produção, preservação de sua cultura e a da floresta são questões que os próprios povos indígenas estão debatendo e construindo sua plataforma para trazer ao Fórum. Para fortalecer esse processo e dar visibilidade às suas lutas e alternativas no decorrer do FSM, o Grupo Facilitador estabeleceu que esse fosse um segmento prioritário para receber apoio do Fundo de Solidariedade, para seu deslocamento. Há uma previsão de 1000 índios de diferentes etnias e culturas, não só da Amazônia brasileira, mas da Pan Amazônia.

DED- Que metodologia está sendo pensada para envolver a juventude nos debates (para além da sua presença no acampamento)?

Aldalice - Esse segmento realmente tem nos preocupado. Não só pela irreverência do último FSM, em Porto Alegre, mas porque o GT está meio disperso no sentido da compreensão do significado do acampamento da Juventude que, a nosso ver, não é apenas o espaço físico onde se juntam 20 mil jovens, mas a sua inserção nos debates, no intercâmbio com outras temáticas e com outros segmentos presentes no FSM. Nossa idéia era que o tema juventude fosse transversal a todas as temáticas e objetivos gerais do FSM. Isso porque, entendemos que esse é um segmento que vem sendo empurrado cada vez mais para ser um consumidor e um competidor exacerbado, por um espaço no mundo; os meios de comunicação impõem-lhes desejos, muitas vezes irrealizáveis do ponto de vista econômico; criam-lhes frustrações que, na maioria das vezes, descambam para a violência; e, ao mesmo tempo, a eles não é oportunizada uma educação, tanto do ponto de vista da capacitação técnica quanto humana, para lutar de forma mais humanizada para conquistar seu espaço. Então, estamos discutindo com eles e elas alternativas metodológicas que sejam integradoras desse segmento no FSM, o que esperamos conseguir até lá.

DED - Algumas pessoas fazem a crítica de que o Fórum, da forma como é organizado de uns anos para cá, não faz mais sentido, não é mais sustentável. Alguns dizem até que o FSM é elitista. O que você pensa sobre isso?

Aldalice - Faz-se necessário recuperar o Fórum Social Mundial como um processo permanente que não se limita à promoção de eventos e é constituído pelo dinamismo real dos movimentos sociais na base da sociedade. Por essas razões, a coordenação dessa oitava edição do FSM insiste na garantia da presença de povos e movimentos que se organizam a partir de lutas concretas nas atividades autogestionadas e na perspectiva de construção de alianças e pactos, celebrados ao fim do evento, prevendo seu desdobramento para além do evento em si.

DED - Como a imprensa está sendo envolvida nesse processo de preparação?

Aldalice - Há uma assessoria de imprensa já desde o inicio do processo preparatório do evento FSM 2009, com uma articulação efetiva com a imprensa nacional (sul/sudeste do país) e internacional, em torno de eventos significativos como foi a semana de Mobilização Global daqui (Belém), retransmitida para 23 países. Também foram divulgados o encontro do comitê internacional, a arquitetura do evento, a dinamização do voluntariado etc. Além disso, há uma boa articulação com a Fundação das Telecomunicações do Pará (Rádio e TV Cultura), que tem pautado muitos de seus programas com as demandas do Grupo Facilitador.

DED - Que estratégias estão sendo pensadas para que o Fórum possa, durante os dias em que estiver acontecendo, não só na teoria, mas na prática, preservar o meio ambiente dessa região - apesar do grande número de pessoas em um mesmo espaço?

Aldalice - O impacto no meio-ambiente, com certeza, será grande. Isso acontecerá pela ausência de uma infra-estrutura e, principalmente, de uma cultura socioambiental, que nos estimule a cuidar dos espaços nos quais vivemos, trabalhamos e agimos. Mas, já tem um grupo, formado pela Associação dos Catadores, por representantes da Economia Solidária e pela Secretaria de Saneamento, junto com a Universidade e o GT de Mobilização, trabalhando na construção de estratégias sobre essa questão, para que os impactos sejam minimizados.

DED - Como as organizações da Cooperação Internacional, especialmente o DED, podem participar do Fórum de forma mais ativa?

Aldalice - Devem estimular e criar as possibilidades para a participação dos movimentos sociais no evento, construindo alternativas e alianças necessárias, produzindo junto com eles debates e contribuindo para a visibilização desses no universo dos participantes. Particularmente para o DED, na Amazônia, coloca-se o desafio de contribuir efetivamente na construção e efetivação dos encontros transfronteiriços e na realização das caravanas, na perspectiva de estimular a articulação panamazônica como um dos resultados permanentes do evento FSM 2009.

 

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